Do DN Business aos presidenciáveis: ajuste fiscal é a prioridade
Como se transmitissem uma carta aberta verbal aos presidenciáveis, quatro dos maiores e mais respeitados economistas do país – Ana Paula Vescovi, Caio Megale, Fernando Gonçalves e Eduardo Gianetti – deixaram bem claro aos 250 empresários cearenses que os ouviram falar durante a primeira edição do DN Business, no lotado auditório do edifício BS Design, que a saída para a crise que se agrava e se aproxima é uma só: um duro ajuste fiscal. E mais: esse ajuste tem de ser proposto ao Congresso Nacional nos primeiros 90 dias do mandato do presidente eleito, “seja ele qual for”, como repetiu o quarteto de oradores na exposição de cada um e ao longo do debate que, conduzido pelo jornalista Victor Ximenes, aconteceu em seguida. O BS Business, para cuja edição há uma fila de espera, é promovido pelo Sistema Verdes Mares (SVM).
Liderados pelos presidentes da Fiec, Ricardo Cavalcante; da Faec, Amílcar Silveira; e da Fecomércio, Luiz Fernando Bitencourt, empresários da indústria, do comércio, do agro compareceram – alguns usando blazer, outros de camisa social de mangas longas, mas nenhum de gravata – e, sob respeitoso silêncio, ouviram as palestras, que, abordando os mesmos temas sob ângulos e perspectivas diferentes, convergiram para o cenário atual da economia nacional: juros altos, crédito escasso, endividamento das famílias, inadimplência das empresas e a consequência do conflito no Oriente Médio com repercussão na inflação do mundo todo, inclusive no Brasil, por causa da disparada do preço do petróleo. E a necessidade do ajuste fiscal.
O horizonte de curto prazo é ruim, mas “os ventos que sopram hoje no mundo beneficiam o Brasil”, disse Eduardo Gianetti, seguido por Caio Megale, economista-chefe da XP Investimentos, para quem “o nosso país é visto como atraente para investimentos, e se é assim, onde está o problema?”, ele perguntou depois haver insinuado que 2027poderá trazer recessão. Megale disse com outras palavras: é preciso haver um ajuste das contas públicas para que se evite o pior. Na mesma toada foi a fala de Ana Paula Vescovi, ex-secretária do Tesouro Nacional. Ela lembrou que a dívida pública, há 15 anos, correspondia a 54% do PIB; hoje, passou dos 80%. “Em 2027, enfrentaremos uma difícil situação, e o futuro governo, seja lá qual for, terá de dar freio de arrumação, porque o estado brasileiro não tem hoje dinheiro para investir. A receita cresce 4% ao ano, mas a despesa cresce o dobro. Só gasto com a Previdência aumenta 4% do PIB anualmente”, disse. Vescovi.
Fernando Gonçalves, do Banco Itaú Unibanco, falou da crise mundial desencadeada pela Guerra no Oriente Médio e sua repercussão no preço do petróleo, “que não voltará mais aos US$ 63 de antes desse conflito, deverá ficar girando entre US$ 80 e US$ 85 por barril, o que será bom para o Brasil, que é um importante produtor e exportador de petróleo”. Após a fala dos quatro economistas, houve um debate entre eles, mediado por Victor Ximenes, coordenador das editorias de economia e política do SVM. Ele pediu a Gianetti e a Ana Vescovi que abordassem com mais profundidade a questão do ajuste fiscal e dessem uma nota de zero a 10 sobre a magnitude do problema. O primeiro, declarando-se otimista, foi logo dizendo que esse é um tema que passa bem longe da campanha eleitoral, porque envolve temas impopulares, como uma nova Reforma Previdenciária, por exemplo, que exige mudança na Constituição. Ele não deu nota, mas Vescovi deu nota 8, explicando.
Victor Ximenes fez a mesma pergunta a Caio Magale, que concordou com a nota 8 de Vescovi. E transmitiu uma informação esclarecedora – a de que a dívida pública brasileira é em reais e que a dívida em moeda estrangeira é muito pequena diante das reservas de mais de US$ 340 bilhões que o país tem. Fernando Gonçalves, por fim, disse que o Brasil está bem-posicionado diante do futuro próximo, porque tem energia renovável para abastecer os Data Center, principalmente no Nordeste, que ´endereço do sol e dos melhores bancos de vento do mundo.Mas pediu que o governo crie marcos regulatórios para atividades importantes da economia, como o que já existe para o saneamento, “que é o melhor do país.